sábado, 23 de janeiro de 2010

Todos contra a Via Mangue


Não é só a Promotoria de Meio Ambiente do Ministério Público de Pernambuco (MPPE) que está contra a Via Mangue, corredor expresso que promete resolver os problemas de tráfego da Zona Sul do Recife. Um grupo de jovens ambientalista criou há uma semana o blog VIA MANGUE NÃO, um espaço para divulgar pensamentos, opiniões e dados reais contra o projeto. O blog luta contra o tempo, já que a Prefeitura do Recife está para começar a construção da primeira etapa do sistema viário, ou seja, a via na prática. Mesmo assim, o grupo não desiste e convida a população a deixar comentários, a interagir com o blog para demonstrar a insatisfação com o futuro corredor. O biólogo recém-formado, Lúcio Flausino, lembra que a Via Mangue é totalmente voltada para o automóvel e, no lugar de resolver os problemas do trânsito, vai estimular mais pessoas a comprarem mais carros. Pondera que custará quase o dobro do Corredor Norte-Sul, linha expressa de ônibus proposta para ser implantada ligando o Norte ao Sul do Grande Recife, sem dar vez ao transporte de massa. “No lugar de investir quase R$ 500 milhões numa via expressa, só para carros, era mais interessante gastar na construção do corredor de ônibus. Até porque, o que precisamos é convencer as pessoas a deixarem seus carros em casa e isso só é possível com um transporte público de qualidade”, discursa o biólogo. Pela proposta apresentada ao governador Eduardo Campos, o Corredor Norte-Sul custará R$ 300 milhões, sendo que R$ 100 milhões seriam investimento em ônibus, assumido pelos empresários. O VIA MANGUE NÃO foi criado também pelos ambientalistas Paulo Lima, Davi Pires e Guilherme Carvalho. No blog, há textos de entidades contrárias ao projeto, questionamentos feitos por um grupo de estudantes do curso de Engenharia Florestal da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), e matérias relacionadas ao tema. “Queríamos um canal para expressar a opinião das pessoas que discordam da construção do futuro corredor. Gente preocupada com a mobilidade urbana, de forma sustentável”, diz Lúcio Flausino. Dêem uma olhada e tirem suas conclusões.
No lugar de investir quase R$ 500 milhões numa via expressa, só para carros, era mais interessante gastar na construção do Corredor Norte-Sul


PE-15 GANHA LOMBADAS E SEMÁFOROS PARA EVITAR MORTES
O povo gritou, queimou pneus e parou o trânsito contra os constantes atropelamentos ocorridos na PE-15, na Região Metropolitana do Recife. Deu resultado. Embora as mortes na pista exclusiva para ônibus da rodovia, entre as cidades de Olinda e Paulista, não sejam novidade, o Departamento de Estradas de Rodagem de Pernambuco (DER) resolveu agir. Depois de instalar um semáforo na faixa utilizada pelos ônibus em frente à Faculdade de Ciências Humanas de Olinda (Facho), começou a implantar no último fim de semana lombadas físicas nas três pistas que ficam na altura do Cemitério Morada da Paz, em Paulista. O órgão garante que as lombadas serão temporárias até a instalação de semáforos no local, o que está sendo providenciado. Outra novidade é que o DER vai retirar a lombada eletrônica existente em frente à Igreja Evangélica de Paulista e substituí-la por semáforos. E, nas imediações da entrada de Arthur Lundgreen II, também serão instalados sinais de trânsito.


CONTROLE SOBRE OS ÔNIBUS
A partir de agora, o controle da velocidade desenvolvida pelos carros na PE-15 também valerá para os ônibus. Até porque ninguém entende o motivo de os redutores de velocidade não fiscalizarem também os coletivos desde que a rodovia foi triplicada e o corredor de transporte implantado no local. Gerente de trânsito e lombadas do DER, Jane Mendonça explica que, no passado, não se pensou nisso porque os ônibus são munidos de tacógrafos e, na teoria, não deveriam exceder a velocidade de 60 km/h. “Mas infelizmente isso não acontece e temos vários flagrantes das barbaridades que alguns motoristas de coletivos cometem naquele corredor. Por isso, agora eles serão fiscalizados do mesmo jeito dos carros. Até porque, a PE-15 não é mais uma rodovia, virou a Avenida 15, devido ao intenso adensamento urbano no seu entorno. Estamos fazendo o possível para oferecer segurança aos pedestres, que têm de ter prioridade”, defende a gerente.


A FAVOR DA VIDA
Muitos motoristas podem não gostar, reclamar e dizer que têm apenas um caráter arrecadatório, mas a verdade é que os redutores eletrônicos de velocidade (REVs), também conhecidos como lombadas eletrônicas, salvam vidas. Estudo realizado em 27 Estados brasileiros revelou que os equipamentos reduzem, em média, 35% o número de acidentes e fatalidades nas estradas onde estão instalados. O estudo foi realizado pela economista Daniela Ornelas, que analisou dados entre 1996 e 2005. O tema da pesquisa surgiu enquanto ela fazia constantes viagens entre o Rio de Janeiro (RJ) e Belo Horizonte (MG), de 2005 a 2007. No percurso, a quantidade de REVs chamou atenção da pesquisadora, que começou a questionar se os instrumentos realmente funcionavam ou se tinham apenas um caráter arrecadatório. Assim, ela resolveu analisar o impacto das políticas públicas na redução de acidentes e fatalidades do trânsito no Brasil. No estudo, descobriu que em 2004 os REVs foram responsáveis por uma redução superior a nove mil acidentes e a mil mortes de trânsito nos 14 Estados que tinham o equipamento nas estradas federais.

QUEM NÃO TEM CÃO CAÇA COM GATO
A demora do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (Dnit) em religar as lombadas eletrônicas em todo o País - desligadas há dois anos -, levou o Ministério Público Federal de Goiás a recomendar ao órgão que construa lombadas físicas nas rodovias. A intervenção acontecerá na BR-060 e está sendo realizada depois de muita pressão do MPF. Foram necessárias duas recomendações para que a superintendência do Dnit no Estado agisse. O objetivo da construção dos quebra-molas é reduzir os acidentes nos pontos mais críticos, que aumentaram depois que os redutores eletrônicos foram desativados. Em Pernambuco, teremos que esperar o Dnit concluir o processo burocrático de licitação para religar os equipamentos, já que por aqui o Ministério Público não se pronunciou sobre o assunto.

Mangueletter poética, agridoce, colagem (clonagem) popconcreta e antenada para o Planeta Mangue,escrita nos 459 anos da própria manguecéia tresloucada




Marcelo Pereira

A Chico Science, Raimundo Carrero e Mário Hélio

Overture - O Recife visto do mangue é um desafio. Conquistar o Recife é desbravar o mangue. Embrenhar-se na lama. Avançar sobre o estuário, onde o ciclo da vida se renova. Ou pior, é soterrar, sufocando vidas que sustém o ciclo de uma cidade "metade roubada do mar,/ metade à imaginação,/ pois é do sonho dos homens/ que uma cidade se inventa". Para descobrir o Recife visto do mangue é preciso navegar, sangrar, singrar suas veias, canais abertos ao ar livre, descendo o "rio escuro e triste/ de lama podre no fundo/ e baronesas na face,/ que vem, modorra e preguiça,/ parando pelas campinas/ e escorregando nos montes,/ até esse sítio claro,/ onde cobriram teu leito/ de pedra, ferro e cimento/ organizado em pontes./ Desde a Velha carcomida/ paisagem para detentos,/ que é por onde sempre passa esse povo marginal/ escuro e anfíbio."

Descer o Capibaribe com olhos de turista ou navegante é, para muitos recifenses ou recifencizados, contudo, uma aventura nunca sonhada ou enfrentada. Mas para quem já embarcou - barqueiros, remadores, caçadores de goiamum, caranguejos ou ostras- é uma descoberta fascinante e bela, ao mesmo tempo cruel, como a poesia que se escreve, com tintas desta mesma água e lama.

A realidade cotidiana das margens ribeirinhas do Planeta Mangue denunciam um outro Recife, mais cru, ingrato, abandonado à sorte. São as entranhas de uma cidade cartão postal, entrecortada de belezas naturais e outras moldadas pela arquitetura criativa dos recifenses, mas nem sempre defintiva, e alimentada pela alegria e hospitalidade decantada dos pernambucanos.

Há nessas entranhas uma poética do avesso, extraída da lama e da alma - uma dentro e fora da outra, ser e palavra - dos homens-caranguejos e mangueboys. Assim, quem se aventura ao passeio pelo Capibaribe sabe que "... tudo o que for do rio/ água, lama, caranguejos,/ os peixes, as baronesas/ e qualquer embarcação,/ está sempre e a todo instante/ lembrando o poeta João,/ que leva o rio consigo/ como um cego leva um cão".

Recife - Cidade Estuário - "Maternidade - Diversidade /- Salinidade/ Fertilidade - Produtividade/ Recife - Cidade - Estuário/ Recife - Cidade - És - Tu .../ Água, Salobra, Desova e criação/ Matéria Orgânica, troca e produção... // (O mangue injeta,/ abastece, alimenta, recarrega as baterias/ da Veneza esclerosada, / destituída, / depauperada,/ embrutecida) // Mangue - Manguetown/ Cidade complexo/ Caos portuário/ Berçário/Caos / Cidade estuário".

Recife - Cidade Provisória - "Cidade divisória, sol e lama,/ mar e mar,/ e pessoas bifurcadas. / no lixo sobre o podre, a borboleta,/ irmã do caranguejo, expõe as asas. // cidade provisória, sem projetos/ de um dia se fazer cristalizada,/ artesanato nunca o das abelhas/ melhor o formigueiro inacabado.// ferindo a prédios dois oceanos crespos/ a contender (um doce, outro salgado)/ no atoleiro do negro contra o verde/ por lâminas de espelho retalhado, // por onde desce, dama e prostituta,/ a se mirar por faces de sobrados,/ a provisória tecelã de ruas/ vendedora de história nas calçadas."

Recife - Cão Sem Plumas. "A cidade é passada pelo rio/ como uma rua/ é passada por um cachorro;/ uma fruta/ por uma espada.// O rio ora lembrava/ a língua mansa de um cão,/ ora o ventre triste de um cão,/ ora o outro rio/ de aquoso pano sujo/ dos olhos de um cão.// Aquele rio/ era como um cão em plumas./ Nada sabia da chuva azul,/ da fonte cor-de-rosa/ dá água do copo d'água,/ da água de cântaro,/ dos peixes de água,/ da brisa na água.// Sabia dos caranguejos/ de lodo e ferrugem./ Sabias da lama/ como uma mucosa./ Devia saber dos polvos./ Sabia seguramente/ da mulher febril que habitava as ostras.//...// Abre-se em flores/ pobres e negras/ como negros./ Abre-se numa flora/ suja e mais mendiga/ como são os mendigos negros./ Abre-se em mangues/ de folhas duras e crespos/ como um negro. //..// Entre a paisagem/ o rio fluía/ como uma espada de líquido espesso./ Como um cão/ humilde e espesso.// Entre a paisagem/ (fluía)/ de homens plantados na lama; de casas de lama/ plantadas em ilhas/ coaguladas na lama/ paisagens de anfíbios/ de lama e lama."

Retroceder para Avançar - Mas enquanto a terra brasilis ainda era virgem como suas matas e índias, convivia-se pacificamente, respeitando-se seu ciclo das águas. "O rio ao entrar no mangue/ Logo deixa de ser rio/ Para ser mangue somente/ E encher de mangue o vazio.// Com excessão da folhagem/ Verde, que ao sol se derrama,/ Embora tenha os pés negros/ Plantados dentro da lama.// O mangue, como um mar morto,/ recebe o rio e o encerra/ Entre seus lábios viscosos/ E as suas ilhas de terra.// ..// O rio ao sair do mangue/ (Depois que o mangue o repele)/ Calça sapatos de lama/ Veste de lama a pele. //...// Mas logo o rio encontra// De novo pedras e areias/ E escuta o mar que o convida/ Com algas, búzios e sereias.//..// Depressa vai se enxuagando/ Num banho de passarinho,/ E despregando a metade/ do mangue pelo caminho".

Quando vieram, então, os colonizadores, primeiro os portugueses e depois o holandeses e, principalmente os galegos dos países baixos, começaram a roubar do mar o mangue, para fazer com seus diques os cais e a domar a sinuosidade da águas com os aterros e canais. "Entre os mangues e pântanos, alimentados pelas águas dos rios Capibaribe e Beberibe cresceu o número de humildes habitações dos marítmos arranchados". "Cidade porto/ holandesa frequesia/ terra mangue antes foi/ alagado, chão incerto/ rompe um povo/ alastrado em lama/ singular tecedura/ costurada em feijão. E os do Recife criaram uma superstição: "Só há saída para o mangue", como estampou certa vez uma manchete de jornal.

Avançar Sempre -Foram-se os invasores de outrora, mas a invasão continuou através dos séculos, perdurando até hoje, com a expansão urbana, construção de shopping centers e edifícios, retificação de canais e abertura de novas perimetrais de Jaboatão a Olinda, passando pelo Recife, do Jordão à circunvizinhança da Ponte Limoeiro e outros arrabaldes. Uma opção civilizatória que optou por adensar a cidade ferindo a sua geografia natural e verticalizando-a, ao invés de buscar outros campos e colinas na região metropolitana, para onde, inclusive vão aqueles expelidos das invasões de mangue, confinados em conjuntos habitacionais populares, ou aqueles que não suportam o caos urbano e procuram refúgio nos resquícios de área verde em Aldeia, Camaragibe.

E sempre que procuram uma saída do Recife para o mangue, soterrando o ecossistema natural da cidade-estuário, expelem como o cirurgião um tumor aqueles que nele habitam: os homens-caranguejos (de Josué de Castro - um cientista da fome) e toda a flora (rhisoflora mangle) e toda a fauna (aratus, chiés, caranguejos, guaiamuns, guajás, mexilhões, unhas-de-velho, sururus, ostras, tainhas entre outros mais). Não há cura, posto que há metástese os problemas.

Homens-caranguejos e suas tocas - E os expelidos são pessoas humildes como Simplício de Tal, que "sorria nas horas certas e fechava a cara nas horas devidas e bebia religiosamente convivia com Deus como quem nasce e acorda e sai vivendo gostava de futebol como se deve andava de ônibus e acordava com o apito da fábrica morava quem sabe lá onde Simplício morava ou se ocultava na rua das casas número das portas o fato é que era numa invasão por cima do mangue".

A sua toca: os mocambos "entulhados à beira do Capibaribe/ Na quarta pior cidade do mundo" "com o seu teto/ de palhas secas/ (onde) sobem paredes/ e o sujo chão/ de barro preto/ barro batido". "Onde o vento do mangue/ Vê, sobre as cégas águas// Meninos-caranguejos/ abrindo os olhos grandes/ Através das janelas/ De folhas e flandres". Formam "impressionantes esculturas de lama/ mangue mangue mangue mangue mangue mangue/ E a lama come o mocambo e no mocambo tem molambo/ E o molambo já voou, caiu lá no calçamento, bem no sol do meio-dia/ O carro passou por cima e o molambo ficou lá/ Molambo eu, molambo tu/ Molambo boa peça de pano pra se costurar mentira/ Molambo boa peça de pano pra se costurar miséria".

É por essas e outras que o poeta-engenheiro Joaquim Cardozo disse certa vez: "Recife,/ ao clamor desta hora noturna e mágica/ vejo-te morto, mutilado e grande,/ pregrado à cruz das novas avenidas/ e as longas e verdes da madrugada/ te acariciam." Não bastassem os versos de Recife Morto, Cardozo ainda declarou sobre a cidade: "Há muitos que nunca saíram daqui, mas que já abandonaram o Recife há muito tempo, pois concordaram com a destruição dos monumentos antigos, com a intensão de utilzar um urbanismo já obsoleto, de linhas retas e ruas largas. Sou da opinião que um homem não deve morar muitos anos na mesma cidade, como não deve viver muitos anos com a mesma mulher e, reciprocamente, a mulher com o mesmo homem".

Não são apenas os poetas e romancistas pernambucanos têm a alma impregnada de mangue e se alimentam da fertilidade da cidade-estuário. Desde 1991 vem-se processando uma renovação artistíca e estética que oxigenou as arterias culturais da cidade. Com suas antenas parabólicas enterradas na lama e sintonizada com a aldeia global pop, os mangueboys - caranguejos com cérebro - das bandas Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S/A plugaram a música pernambucana no cenário da música brasileira e internacional dos anos 90, dando uma nova linguagem para os ritmos regionais e enfocando complexidade urbana da metrópole.

Com o movimento mangue, despertou-se a atenção da mídia e abriram-se espaços para que emergisse um novo olhar sobre a cidade mangue, através do talento de jovens músicos, pintores e estilistas de moda que, sem ter um compromisso formal, de uma forma ou de outra terminam refletindo os anseios de uma geração que sente a necessidade de se inserir num processo de integração mais aberto e multiculturalista, sem abrir mão do desejo de resgatar ou revalorizar os valores que fazem parte do seu substrato cultural. Exemplos são as bandas Mestre Ambrósio, Querosene Jacaré, Cavalo do Cão, Alma em Água, Véio Mangaba, Coração Tribal, Jorge Cabeleira, Tonheta, Antúlio Madureira, entre tantos outros. E a resposta tem sido das mais positivas e animadoras. A repercussão da primeira turnê internacional de Chico Science & Nação Zumbi, os elogios da crítica para o seu trabalho e os premios obtidos por Mundo Livre S/A e, mais recentemente pela manguefashion do estilista Eduardo Ferreira, o primeiro vencedor do Phytoervas, mostra que neste caçuá ainda tem muitas surpresas.

Mesmo assim são poucos os que não homens-caranguejos a ter a coragem de conhecer o mangue por dentro, embrenhando-se nele, como Pissinho, o garoto personagem de O Saveiro do Inferno, do mangue-writer Sílvio Roberto de Oliveira. Com seus irmãos e a mãe, Pissinho luta "com as ratoeirtas de pegar goiamaum nos mangues cercados de capim barba-de-bode que crescia nos aterros em volta. Pissinho, o caçula, desde pequeno "sabia armar a arataca fieta pelos irmãos mais velhos e bem feita que pra tudo precisa de jeito e arte construída de lata de óleo aberta de um lado a tampa da própria lata presa com arame a uma cruz de madeira a uma fita de borracha de câmara-de-ar enlaçando a lata por baixo para dar pressão e a ponta da cruz era então enganchada na ponta do arame que ia dar na isca a armadilha colocada junto dos buracos e pronto: se a isca fosse boa de casca de laranja ou mesmo de folha de mangue, em pouco tempo haveria bicho preso rasqueando na lata, alvoroçado para sair".

Quem já pescou caranguejo ou goiamum no mangue deve se identificar com Pissinho em O Saveiro do Inferno, inspirado nos Autos da Barca do escritor português Gil Vicente. O garoto distrai-se enquanto toma conta da arataca, "porque era preciso vigiar que o mangue era cruzado de ladrões a toda hora eram os ladrões de ratoeiras", desenvolvendo uma pontaria impressionante com a baleadeira "e matava caranguejos a vinte metros mesmo dos pequenos sem falhar a gente só via de longe o casco azulado se espatifando no meio da lama com a bala de barro redondinha seca no sol zunindo certeira até lhe estoutrar nas costas". Quem já foi garoto de beira de rio sabe o prazer de uma aventura como essa ou então como a de andar com as jagadas feitas de troncos de bananeiras, como as que Pissinho fazia para "sair boiando empurrando com uma vara por entre os paus do mangue-seriba chegando aos portos das ilhas de lama pena que as ilhas de mangue não tinham coqueiros feito as que aparecia na televisão ou revistas que ele achava no lixo".

Mesmo sem viver estas aventuras, muitos já se deliciaram com os pratos feitos a base dos frutos do mangue, caranguejos e goiamuns (há quem diga gaiamuns ou ganhamuns) cevados, servidos fervidos na água e sal, com coentro e cebolinho ou com pirão ou, ainda molho de coco, tempero com os quais se fazem também as iguarias pernambucanas da mariscada, do sururu e da unha de velho. Deliciosos quitutes, de paladar inesquecíveis vindo de um mundo tão crespo e em decomposição. Quem explicar há de? Assim é a Ilha do Recife dos Navios. E tudo porque: "O rio está em nossa infância/ Tomávamos banho nele/ Hoje ele se banha em nós".

Marcelo Pereira, editor do Caderno C do Jornal do Commercio

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Moradores denunciam empresa que estaria poluindo rio em Jaboatão



O flagrante de desrespeito ao meio ambiente e ao cidadão acontece em Barra de Jangada; CPRH vai fiscalizar o empreendimento Um flagrante de desrespeito ao meio ambiente e ao cidadão. Moradores de Jaboatão dos Guararapes não conseguem almoçar direito nem ficar muito tempo na rua. Eles reclamam de um mau cheiro constante, que não vem de nenhum esgoto. Eles dizem que o mau cheiro é causado por uma fábrica de alimentos, que estaria poluindo um rio.
É na Estrada da Curcurana, no bairro de Barra de Jangada, que os moradores estão sofrendo com a poluição do rio. Quem mora por lá reclama que desde 2004, quando a empresa Bragança Alimentos se instalou na rua, a sujeira no rio tem sido uma constante.

“A gente quer apenas uma solução para esse problema, pois isso aqui está sem condições de viver. Até quem vem de fora sente o mau cheiro”, reclamou o técnico de laboratório Carlos André Vitalino.

No rio, a sujeira é facilmente constatada. Uma camada de dejetos está parada sobre a água, tinha até pele de galinha. O operador de ponte Gildo Cosmo mostrou por onde os resíduos chegam ao rio e reclama que a sujeira tem prejudicado toda a comunidade. "Fica um mau cheiro terrível, ninguém suporta. Tem que botar a mão no nariz para passar por aqui”, disse.

Os moradores já fizeram até um abaixo-assinado denunciando a situação que enfrentam. O montador de veículos José Henrique Vitalino chegou a sugerir o que a empresa deveria fazer.
“A empresa deveria fazer casa de esgoto e contratar um caminhão que recolhe dejetos para que ele jogue em um local adequado para tratamento”, falou.

A direção da Bragança Alimentos foi procurada, mas ninguém quis gravar entrevista. O diretor industrial, Ricardo Oliveira, disse que todos os resíduos industriais da produção de empadas e outros produtos são tratados antes de serem despejados no rio. Ele informou também que a empresa tem licença da Agência Estadual de Meio Ambiente (CPRH).

O documento foi renovado no mês passado. A CPRH mandou uma equipe no fim da manhã desta terça-feira (12) para fiscalizar e vistoriar a fábrica para ver se há irregularidades.